THEUSZ HAMTAAHK Trilogy
MAGMA 30TH ANNIVERSARY CONCERT - THE MOVIE

É-me muito difícil sentar e tentar escrever um breve comentário a este DVD que acabei de ver pela enésima vez... Até para o mais leigo dos ouvintes é claro que não estamos perante uma banda “normal”, que tenha um estilo fácil que absorver, que entre no ouvido. Pelo contrário, estamos perante um dos mais originais conjuntos de músicos da história da musica. Mas esta originalidade tem um preço. Os franceses Magma, formados em 1969 pelo baterista, e único membro fixo a atravessar todas as formações, Christian Vander, deixaram um legado musical sui generis. São uma banda que talvez só poderão provocar duas coisas: Amor ou Ódio. O meio termo parece impossível e mais impossível é ficar indiferente à sua musica.
Com raízes bem sólidas no jazz, com Vander a citar frequentemente Jonh Coltrane como uma das suas maiores influências, os Magma criaram um estilo ímpar. De tal forma que lhe foi atribuído uma denominação própria, “Zeuhl”, (Celeste no dialecto de Kobaïa) uma força musical que mostra influências que parecem tão díspares como o jazz, compositores como Orff e Bartók, Rock Sinfónico ou R&B.
Até a palavra “Zeuhl” só por si indica uma das particularidades desta banda. Os Magma levam a ideia de álbum conceptual ao extremo. Não ficando por um ou dois discos conceptuais, os Magma são uma banda conceptual que conta uma história ao longo da sua carreira. Sendo cada disco um capítulo da saga do povo de Kobaïa.
Contam a história de um grupo de pessoas que, num futuro distante, partem do planeta Terra fugindo da sua decadência e fundam uma nova colónia baptizada como Kobaïa. Esta civilização cria também o seu próprio dialecto, o Kobaïan. Este é o dialecto inventado e usado pelos Magma nas suas letras. Poder-se-ía dizer que é uma mistura de Francês, Inglês e Alemão que cria um dialecto com uma sonoridade única, violenta e ritual até que assenta como uma luva na sonoridade dos Magma.
Muito há para dizer sobre a história dos Magma, mas esta tentativa de crítica ficaria tão extensa que deixo futuras investigações para os caros “forenses” aos quais estas palavras possam suscitar algum interesse.
A obra que me leva a escrever estas linhas é a sua primeira edição em DVD, THEUSZ HAMTAAHK Trilogy au Trianon, a gravação do concerto da celebração do 30 º aniversário da banda no teatro Trianon. Este DVD duplo divide-se em três movimentos: Theusz Hamtaahk, Wurdah Ïtah e Mekanïk Destruktïw Kommandöh.
E recordo que estes três movimentos estão ligados entre si, contando as desventuras do povo de Kobaïa. Estas são as três grandes composições dos Magma, quer em extensão, quer em genialidade criativa. Cada um destes movimentos ultrapassa a meia hora de extensão, mas cada segundo prende-nos como que por magia. Uma atracção tal que parece que estamos lá, a celebrar um ritual de musica. Ao núcleo da banda constituído por bateria, guitarra, baixo e teclas, junta-se uma secção de metais e um coro de vozes femininas e masculinas. Mas não se pense que se trata de mais uma tentativa como outras de juntar uma banda rock com uma orquestra e tentar jogar com a dualidade que se apresenta no confronto desses dois mundos. Aqui, estas três unidades aparentemente distintas fundem-se e trabalham em conjunto para cria um som único, o som Zeuhl, que não deixa o ouvinte indiferente.
O DVD arranca com o 1º movimento Theusz Hamtaahk (O tempo do ódio). Nesta peça estão patentes os traços característicos da banda. Momentos de uma calma absoluta, minimalistas que deixam o ouvinte numa espécie de letargia para depois logo ser bombardeado por uma descarga de adrenalina. O movimento vai-se desenvolvendo atravessando estas várias dinâmicas e aquecendo a audiência para o que se segue. Cedo se nota que o veterano Vander é o mestre de cerimónias. O seu trabalho na bateria pode não parecer de uma técnica fenomenal à primeira vista. Mas sinceramente não é isso que se pretende atingir. Vander parece mais um líder religioso ou militar que está ali para guiar um exército. Ás vezes parece possuído... parece estar numa espécie de transe mental e trata a bateria como se se tratasse de uma máquina infernal que guiasse os destinos do Universo. Cria a dinâmica, leva o resto da banda nos ombros, uma vezes com se de uma locomotiva se tratasse. Força. É uma palavra que não se pode deixar de referir ao ouvir Magma. São uma força musical imensa. Umas vezes suave, calma quase que entediante e outras simplesmente brutal.
O segundo movimento, Wurdah Ïtah (A morte da Terra), mostra-nos a face mais minimalista e repetitiva da banda. Esta peça editada em 1974 foi utilizado como banda sonora para o filme “Tristan et Iseult”. Frases musicais que se repetem, desenvolvendo-se lentamente lembrando o tipo de evolução de o Bolero de Ravel tem. Lentamente vai ganhando ímpeto até atingir o seu final. Talvez não seja a peça mais ambiciosa dos Magma mas tem o seu lugar na trilogia. A escolha deste movimento de certa forma mais calmo e minimalista para o meio do concerto não terá sido vã. Depois do começo em força com Theusz Hamtaahk, os Magma baixam as rotações com Wurdah Ïtah e guardam aquela que poderá ser considerada a derradeira e mais ambiciosa peça musical da história dos Magma. Por fim, o 3º movimento: Mekanïk Destruktïw Kommandöh.
Este tema que constituiu o 3º disco dos Magma, editado em 1973, apresenta os Magma e todos os seus elementos no seu auge. Pessoalmente considero esta peça o Magnum Opus da banda. Se existe tema que descreva com clareza todos os traços da musica dos Magma é esta. A repetição de frases minimalistas que criam tensão de forma gradual e progressiva, todo o tom operático e orquestral que é a imagem de marca Magma e do estilo Zeuhl e uma força brutal. Quase poderíamos dizer que é uma versão “dopada” de Carmina Burana de Orff. Torna-se muito difícil explicar por palavras uma musica tão particular, sobretudo quando tocada com tais níveis de intensidade como as que presenciamos neste DVD. Se em disco Magma impressiona, ao vivo todo o poder e criatividade são exponenciados ao extremo. Não nos custa mesmo nada a acreditar em relatos sobre cantores que desmaiavam de exaustão em palco ou que acabavam concertos com vários quilos a menos. Contudo, não se pense que é musica de caos e destruição. Os arranjos são fantásticos e, apesar da banda ser auxiliada pelo coro e uma secção de metais de 5 elementos, é impressionante ouvir a “cortina de som” criada por uma bateria, um baixo, uma guitarra e um Fender Rhodes. De aplaudir o trabalho do baixista Bernard Paganotti que, não fazendo esquecer a personalidade de Jannik Top, consegue imprimir uma linha sólida e um som denso.
A sala do Trianon ilumina-se e a banda é brincada com uma salva de palmas de uma audiência perfeitamente extática. Os ouvidos sedentos de Magma foram completamente satisfeitos com Mekanïk Destruktïw Kommandöh. A força e o peso que os Magma imprimem fazem muitas bandas de black metal parecerem meninos de coro...
Além de música fabulosa, esta audiência presenciou um reencontro e uma celebração histórica. Celebraram 30 anos de música, de inovação e de luta. Os Magma foram alvo de muitas perseguições por parte da crítica em França. Pela sua música e pelas suas performances em palco, devido a apresentarem-se completamente vestidos de negro apenas com o símbolo da banda estampada nas vestes, foram muitas vezes conotados com a extrema direita. Nada de mais errado. Mas num país em que se vivia o marasmo musical da chanson française o surgimento de uma força criativa deste calibre e originalidade cedo levou a tomadas de posição críticas e mentirosas. Quase nos leva a gracejar que se não estás pelo sistema...estás obrigatoriamente contra. Até na música...
Sei que esta não será a melhor das críticas que se poderia fazer sobre esta edição. Consideraria-o mais uma sugestão ou uma introdução àquilo que as palavras não conseguem dizer mas que os ouvidos captam e o que sentimos cá dentro quando ouvimos Magma.
Sei também que a maior parte dos “forenses” não deve ter sequer ouvido falar desta banda e mesmo que oiçam provavelmente vão desgostar, Não é definitivamente música para a geração MTV. Aliás, será difícil dizer para que geração esta música é... é sobretudo para pessoas que não têm medo de derrubar fronteiras e ouvir musica sem quaisquer preconceitos. Por isso, se estas longas ( eu sei que está extenso e peço desculpa, mas muito, muito mais havia para dizer) despertaram a curiosidade de alguma mente mais aberta, força! É explorar a pouco e pouco este mundo Zeuhl. Se à primeira audição não ficarem impressionados.. dêem tempo... é uma musica que entra lentamente no sangue e que se espalha até tomar conta de nós...

Help



MultiQuote












