Posted 13 March 2012 - 08:47
Eu sentia-me um pouco assim, quando comecei a estudar Música. Via a Música Clásica como uma treta qualquer que tinha que tocar e que era apenas uma porta que tinha que abrir e fechar rapidamente. Abri e maldita a hora em que a fechei... Pedi técnica, perdi rapidez, agilidade, entre outras coisas. Ganhei muito mais formação e passei a perceber muito mais o que fazia. Hoje, posso dizer que me desenrasco minimamente com o trabalho que tenho mas falta-me algo mais - estudar técnica, desenvolver a velocidade que já perdi.
Pode parecer estranho mas o que me ajudou mais, nos últimos tempos, foi ter tocado dois anos em bailes. Apanhei de tudo: técnica de acordeon, metais, piano, strings, órgão, pad's, synth, flautas... e a agilidade com que têm que se executar vários "instrumentos" na mesma música é muito prática e ajuda bastante a desenvolver um tipo de percepção sonora que é diferente do "pauta - Piano - olhos fixos na pauta".
Quando volto a tocar algo que toquei, nos meus primeiros anos de formação, vejo que evoluí muito em termos de percepção e em termos de "sentimento". Toco as coisas mais de vagar mas com mais prazer e com mais sensibilidade.
Nunca me importei com improvisar durante 5 minutos e nesses 5 minutos debitar 5000 notas. Tenho um solo? Faço o que fica bem, o que fica bonito. Toco nos pontos principais da escala que soa melhor naquele momento e dou muito uso às progressões cromáticas e às notas dissonantes. Faz com que fique no ar uma ligeira desafinação mas que, quando é rezolvida, dá uma satisfação de tal ordem que o simples se torna belo. Não são precisas muitas notas, são precisas as importantes.
Samba de uma nota só, tem um improviso que ninguém discute, apenas com uma nota. A maior parte do pessoal só se preocupa em debitar o maior número de notas possível e aí, quando toca algo fora, é prego e nota-se mesmo muito. Quando, por outro lado, se tocam poucas notas, até as dissonantes soam bem porque têm tempo de soar, de procurar resolução.
O importante, num improviso, não é mostrar o quanto se sabe mas o quão belo pode ser um solo com meia dúzia de notas. É claro, depende dos instrumentistas e dos gostos pessoais de cada um. Esta é a minha maneira de pensar.
Ah, importante- Quando se improvisa, evitar cair sempre nas tónicas dos acordes, acabar as frases sempre na mesma nota... Deve-se dividir o improviso em várias frases e deixar o tema respirar. Frazer uma frase, deixar respirar, fazer outra... As dissonâncias não precisam de ser sempre sempre sempre rezolvidas logo a seguir.
EX: Estamos em dó maior e a frase melódica é esta: lá ré dó mi sol#... respira... dó ré mi lá sol# lá.
O que quero dizer é o seguinte: a nota dissonante pode ficar na memória auditiva e ser rezolvida mais tarde. Ela está lá e às vezes resulta melhor uma resolução tardía do que imediata.