Tive este sábado, o privilégio de assistir a uma guitar clinic com Rob Harris (jamiroquai), e devo dizer que além de ser um grande guitarrista, é também uma pessoa humilde.
O apresentador tentou puxar por ele para que na apresentação ele se colocasse num patamar superior (como se o facto de ser o guitarrista de Jamiroquai, não fosse já o suficiente) e Rob, ainda timidamente, lá acabou por dar alguns nomes com quem tem trabalhado (Robin Williams, Elton John, Katie Perry, Killie Minogue, entre outros).
Ele falou do seu estilo de tocar, nomeadamente funk, também das suas influências e do que ouvia, que acabou por influenciar a sua forma de tocar. E também do que faz em estúdio, e de como o faz, e essa foi a parte que mais achei interessante, uma vez que passa a maior parte do tempo a trabalhar também como músico de sessão, e sendo ele tão requisitado para trabalhos em estúdio, certamente é porque tem uma postura que atrai os produtores.
Ele apresentou-se, com uma guitarra Fender Stratocaster, um amplificador Fender, é um pedal overdrive.
Falando do que usava, disse que também passou pela fase dos muitos pedais. Chegou a usar muitos pedais e efeitos, mas actualmente usa apenas um pedal overdrive. Brincou com o facto de o David Guilmour usar carradas de pedais, e disse que também o poderia fazer, que só overdrives tem bem mais de vinte em casa, mas ao longo dos anos chegou à conclusão que os pedais limitavam a sua forma de tocar, e que tenta fazer ele mesmo o que os efeitos fariam automaticamente. Deu o exemplo do Phaser, e alternou a posição de tocar com a palheta, movendo a posição da mão, entre a zona junto à ponte e braço da guitarra, e simulou dessa forma o que se costuma ter com um Phaser.
Usa como já disse, um único pedal overdrive, e nem referiu qual era, ele disse: Na realidade qualquer um serve, eles fazem todos a mesma coisa, e as diferenças são praticamente imperceptíveis. Tenho mais de vinte em casa, e sinceramente, eles soam todos ao mesmo.
Em estúdio a sua preocupação é ter apenas um bom tone limpo de guitarra. Porque, segundo disse ele, quem tem a palavra final é o produtor, por isso nem vale a pena perder tempo com efeitos, chego lá, toco o melhor que posso com um bom tom limpo, e depois o produtor pode usar os plugins que quiser para obter o resultado final.
Perguntei-lhe se era comum dobrar guitarras em estúdio.
Respondeu que o fazia o tempo todo, que essa é uma das características do estilo de gravação dos nossos dias, que dessa forma o produtor tem as pistas todas que necessita para criar o ambiente que pretende na mistura, e deu exemplos disso.
Uma das coisas que faz é tocar, exactamente a mesma coisa, mas mudando os pickups da guitarra, dessa forma, disse ele, que se metermos o pickup da bridge à esquerda, e o da ponte à direita, por exemplo, que a guitarra soa muito mais aberta.
Outra coisa que faz muito também, é alternar nas oitavas, se toca um rif numa oitava, depois toca uma oitava acima a mesma coisa, e exemplificou isso usando um rif tocado com técnica palm mute.
Falou também da sua postura, relativamente a uma música, diz ele que a primeira coisa que faz é escutar o groove da bateria e do baixo, e tenta sincronizar o seu relógio interno com eles, para que o seu groove se encaixe perfeitamente na música. Frisou a importância de escutar tudo o que se está a passar, em vez de ficar absorvido na guitarra e querer fazer muito, disse que isso é um enorme erro. Tentou passar a mensagem, de que como guitarristas não deveremos ter a ansiedade de fazer muito, ou preencher muito, que é bem melhor fazer algo simples e que se encaixe, do que shredar ou tocar acordes usando as cordas todas. E deu exemplos, meteu uma música apenas com baixo e bateria, tocou por cima e alternou entre shred, acordes preenchidos e um rif simples. Uma nota: ele tocou todos esses exemplos bem, como que se tivesse sido um produtor a pedir isso, e ele o fizesse da melhor forma possível. Depois perguntou à assistência qual a parte que preferiam, e unanimemente foi escolhida a parte mais simples.
Deu o exemplo do que tocava em algumas musicas conhecidas dos Jamiroquai, e na Little L, que foi um hit da banda.
Perguntei-lhe também, se quando estava em estúdio, se já tinha a preocupação de como iria tocar o tema depois ao vivo, uma vez que gravava tantas camadas diferentes de guitarras.
Respondeu que em Jamiroquai, sim, porque obviamente é ele que depois toca ao vivo, e opta por tocar a parte que mais se destaca no disco. Os Jamiroquai não usam backing tracks, até porque o Jay improvisa muito e interage muito com o ambiente do público, e por vezes não entra onde era suposto, ou altera partes, e a banda segue-o constantemente, com backing tracks isso não é possível. Opta então por tocar o que mais se evidencia no disco.
Quando grava para outros, não se preocupa nada, apenas mete layers e mais layers, e depois que se desenrasquem.
Relativamente a Jamiroquai, disse também que o Jay é normalmente quem compõe as musicas, que geralmente já chega a estúdio com ideias muito concretas acerca do que quer que eles toquem. Fica aqui as partes que reti melhor, não é nem de longe a mesma coisa, mas espero que também possam beneficiar de alguma desta informação.