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xtech    2914

Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

(Álvaro de Campos)

Fico com a sensação que para  muitosmúsicos não profissionais - que não fazem disto vida, digamos assim - passados uns anos chegamos a uma sensação de cansaço - ou de desilusão.

Olho para trás e aconteceu-me isso: sempre gostei muito de música, e apesar de nunca ter querido viver da música (porque exigia muito estudo e dedicação - coisa que me tirava a pica - sempre preferi a "anarquia" da inspiração - tocar o que me apetece quando me apetece), tinha isso praí como a 2ª ou 3ª coisa que mais gostava. Quando tinha 8 anos fiquei todo contente com o teclado que os meus pais me compraram (um Casio bem ranhoso para todos os efeitos, mas já com 5 oitavas)

Quando comprei a minha primeira guitarra eléctrica, praí em 2004, foi espectacular. Tava na universidade, e tocar guitarra era parte do meu dia-a-dia. Continuava a tocar o que apetecia e gastava o tempo que queria. Comprei e vendi muito material, sempre subindo o nível dele. De squier bullet passei para uma ibanez RG, depois comprei efeitos, depois mais guitarras, depois comprei material de estúdio, depois comprei um baixo, etc.

Hoje em dia dou por mim a olha para o material todo e dar-me de conta que o uso muito pouco. Toco 5% do que tocava nesses tempos, agora que tenho "tudo" o que sonhava na altura. O GAS que antes era constante, agora controla-se bem. Olho para as novidades e não vejo nenhuma novidade. "Olha, mais um pedal de distorção", "olha mais uma guitarra"... igual a tantos outros que saíram e dos quais a história não se lembra.

Antes queria saber mais, aprender mais, agora contento-me com o que sei e com o que sei, que podia ser muito mais.

Dá-me a sensação que a certa altura a vida nos instala um cansaço, como dizia o poema de cima...

Também vos acontece isso? Ou tou a ficar velho?

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resolectric    1075

Também me acontece isso, aconteceu, mantém-se e não quer isto dizer que não "estejas a ficar velho".
Estamos todos.

Seja como for creio que o mundo da música se tornou extremamente desmotivador por questões culturais e sociais.
O desinteresse do "público", a saturação do meio criativo com milhares de músicos a surgirem cada dia e que, para além de não conseguirem espaço para mostrar o seu trabalho, muitas vezes ocupam o espaço de quem trabalha melhor.

Na realidade parece que já ninguém ouve música se não for também músico.

Também não descontaria o factor de "excesso de brinquedos".
Sei que quando tinha dois decks de cassettes e um sintetizador fazia música todo o dia e todos os dias. Tenho centenas de horas de música desses anos.
O último disco que fiz, com música minha, foi em 2005 e agora tenho um estúdio completo, um número infindável de instrumentos variados, tudo o que posso precisar para fazer um disco por dia e nada... não toco nem uma nota.

Não... no outro dia mudei as cordas de uma guitarra. A seguir afinei-a.
Ficou por aí.

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phillipric    194

Juntem todos os factores. Sendo que penso que o primordial nem se liga à música. A idade, as responsabilidades para com a família, contas por pagar, etc. 

Quando há 15 anos pensava em juntar 1000€ para comprar um teclado, por exemplo, agora penso que 1000€ dá para muita roupa, contas, despesas, por aí. Desde que nasceu o meu filho então, controlo imenso essas despesas. Quanto ao uso e à compra do material, perdeu o factor "novidade". Não é por já se ter um produto XPTO topo de gama e que a partir daí não há mais nada. É por não ser novo/novidade. Podem, se calhar, pensar na mesma coisa com um PC, por exemplo. Quando tive o meu primeiro PC, não largava aquilo. E só dava ou para jogos, ou para trabalhar. Não tive net durante quase 5 anos mesmo após ter o meu primeiro pc. Mas ainda assim, era o brinquedo. Com a música, penso que se passe o mesmo, com o factor extra de que, ou fazes para ti, só, ou se entra pelo factor comercial de vender/demonstrar um produto, estamos num mundo "cão" em que toda a gente atropela toda a gente, onde não se valoriza qualidade, mas imagem e em que qualquer palerma dá uma opinião facilmente e "atinge" milhares de pessoas num contexto de redes sociais. Das duas uma, já me convenci disso há algum tempo e até estou a por alguns projectos de lado por isso mesmo: Ou tens dinheiro e fazes render esse dinheiro, com produção de cds/videoclips, material de luz e som e as cenas mais XPTO e vais para o mercado rentabilizar isso, ou és um fora de série com uma qualidade que ninguém tem, ao qual tens de juntar uma boa imagem e tens o "padrinho" adequado. 

Eu ainda vou andando na labuta, dando aulas, sendo esse mesmo o meu trabalho. Dou aulas de piano. Tenho 2 projectos "meus". Inseri-me agora num novo projecto. Já estive em 6 ou 7 diferentes, já lhe perdi a conta. Não deu para continuar por vários factores, ou falta de qualidade no geral, ou distância para ensaios, ou falta de qualidade "humana" ou falta do melhor enquadramento comercial. Dos 2 projectos que tenho, 1 deles vou dar por finalizado este ano. Já falei com a malta, não ficaram muito satisfeitos mas, a verdade é que lhes disse mesmo o que apresenta este tópico: "estou cansado". Também porque sempre levei quase tudo às costas e chegou um ponto em que me cansa ver pessoal que chega, pega nas baquetas ou na guitarra e... "o que é para tocar? Põe aí para a gente ouvir" pois... mas ando eu a cifrar, a tirar cópias, a preparar repertório, a enquadrar o espectáculo e o pessoal não se dá ao trabalho de ouvir as músicas em casa, sequer... não dá. Envolve família, vai ser complicado, mas tomei a decisão.

 

No segundo projecto, cujo nome está até no meu avatar, começamos em 2016 a ensaiar, com um período grande de pausa, porque o nosso guitarrista passou por um linfoma. Felizmente tudo correu pelo melhor, ele disse para nós continuarmos sem ele, mas fomos fiéis ao facto de que se foi assim que o projecto começou, iria ser assim que o projecto seguiria. Hoje em dia ele agradece-nos imenso essa postura. É verdadeiramente o projecto, de todos onde estive, onde sinto mais qualidade, que toda a gente trabalha em prol de um objectivo e todos dão o seu máximo. Toda a gente é 5* e somos amigos, além de músicos. Poderá ser uma coisa em grande, ou não... mas a verdade é que é o único projecto que me entusiasma agora. 

De qualquer forma, já disse para mim mesmo que, um dia se este projecto não puder ter uma continuidade, daqui para a frente, limito-me às teclas, a fazer parte de qualquer grupo onde faça a minha parte e os outros façam a sua. Lá está. Estou cansado também de trabalhar pelos outros todos. 

Desculpando o alongar do texto... entendo perfeitamente o que dizem. Só que não consigo largar a música. Faz parte da minha essência desde os meus 8 anos... comecei a fazer palcos aos 13 e hoje, com 34, espero ter ainda tantos ou mais do que aqueles que já passaram. Se me limitasse a fazer música dentro de casa, já tinha desistido, isso é certo. Mas também sinto falta dessa capacidade de produzir, editar, ter paciência para ler, ver, procurar. Mas o tempo não dá para tudo. 

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pgranadas    2245

Existem dois factores que me parecem pertinentes. 

O primeiro tem a ver com a novidade e o fascínio. Era isso que me acontecia quando era mais novo. Tudo era novidade, fazer uma sequência de acordes fascinava-me, e por isso tocava muito mais tempo. Hoje já não fico tão fascinado e sou na realidade muito autocrítico com o que faço, o que por vezes é negativo porque pode levar a alguma frustração também, e acaba-se por tocar ainda menos. 

O segundo tem a ver com o ter ou não um determinado objectivo. Noto que quando se tem um objectivo em mente que isso me impulssa a fazer algo

Quando era novo sonhava viver da música, por isso também me dedicava mais. Hoje não vivo de ilusões. Mas isso não impede que não se tenha objectivos, são é mais realistas. 

Para lutar contra essa tendência que falas @xtech, no meu caso não tenho dúvida que ajuda ter um objectivo presente. Quando não tinha, passaram-se literalmente anos até pegar de novo num instrumento. 

Há uns 3 anos decidi que queria editar um álbum. Não tinha, nem tenho grandes meios, ainda menos guita para recorrer a quem sabe, mas decidi avançar na mesma. Era o fazer menos bem mas fazer, ou desistir. 

Hoje escuto o álbum e tem N coisas erradas, mas serviram de estudo, de aprendizagem e por isso acho que nesse sentido foi muito útil. 

Actualmente pretendo lançar mais dois e meio. Um de um projecto familiar que vai em passo de caracol, mas que há de lá chegar. Outro que será uma sequência do primeiro, e também quero melhorar o primeiro. 

Não pretendo tocar ao vivo, não tenho como objectivo fazer concertos e viver disto (não que não gostasse, mas tenho uma dificuldade que falo mais adiante) , mas como me dá gozo, será que é preciso mais? 

Sonho maior que tenho agora, gostava de ver um música minha incluída num filme ou série, e isso seria para mim o auge da "carreira", sem stresses e só porque sim. 

É verdade que família e obrigações vêem em primeiro lugar e que as prioridades são outras de quando se é novo. Mas tenho conseguido conciliar as coisas, até porque a minha esposa e filhas, sabendo do bem que a música me faz, tambem me apoiam. 

A dificuldade de que falei lá atrás, é a idade. Tenho quase 49 anos e então é assim. O pessoal da minha idade, já não se interessa por música, os mais novos olham para mim e não me parece que queiram fazer um projecto com um cota. Portanto é difícil arranjar pessoal que queira alinhar comigo em projectos e acabo por ter de fazer tudo sozinho, sendo assim, fica de parte a possibilidade de tocar ao vivo, porque não tenho banda. Isso desanima? Sim um pouco, mas como se costuma dizer, mais vale só que m0al acompanhado. 

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A.G.E.N.T.E.    126
há 2 horas, xtech disse:

Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

(Álvaro de Campos)

Epá, não ligues ao Álvaro que ele escreveu isso em Tavira, numa tarde de agosto, à torreira do sol e num dia assim não tens como não te sentir estafado :B):

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phillipric    194
há 6 horas, pgranadas disse:

Existem dois factores que me parecem pertinentes. 

O primeiro tem a ver com a novidade e o fascínio. Era isso que me acontecia quando era mais novo. Tudo era novidade, fazer uma sequência de acordes fascinava-me, e por isso tocava muito mais tempo. Hoje já não fico tão fascinado e sou na realidade muito autocrítico com o que faço, o que por vezes é negativo porque pode levar a alguma frustração também, e acaba-se por tocar ainda menos. 

O segundo tem a ver com o ter ou não um determinado objectivo. Noto que quando se tem um objectivo em mente que isso me impulssa a fazer algo

Quando era novo sonhava viver da música, por isso também me dedicava mais. Hoje não vivo de ilusões. Mas isso não impede que não se tenha objectivos, são é mais realistas. 

Para lutar contra essa tendência que falas @xtech, no meu caso não tenho dúvida que ajuda ter um objectivo presente. Quando não tinha, passaram-se literalmente anos até pegar de novo num instrumento. 

Há uns 3 anos decidi que queria editar um álbum. Não tinha, nem tenho grandes meios, ainda menos guita para recorrer a quem sabe, mas decidi avançar na mesma. Era o fazer menos bem mas fazer, ou desistir. 

Hoje escuto o álbum e tem N coisas erradas, mas serviram de estudo, de aprendizagem e por isso acho que nesse sentido foi muito útil. 

Actualmente pretendo lançar mais dois e meio. Um de um projecto familiar que vai em passo de caracol, mas que há de lá chegar. Outro que será uma sequência do primeiro, e também quero melhorar o primeiro. 

Não pretendo tocar ao vivo, não tenho como objectivo fazer concertos e viver disto (não que não gostasse, mas tenho uma dificuldade que falo mais adiante) , mas como me dá gozo, será que é preciso mais? 

Sonho maior que tenho agora, gostava de ver um música minha incluída num filme ou série, e isso seria para mim o auge da "carreira", sem stresses e só porque sim. 

É verdade que família e obrigações vêem em primeiro lugar e que as prioridades são outras de quando se é novo. Mas tenho conseguido conciliar as coisas, até porque a minha esposa e filhas, sabendo do bem que a música me faz, tambem me apoiam. 

A dificuldade de que falei lá atrás, é a idade. Tenho quase 49 anos e então é assim. O pessoal da minha idade, já não se interessa por música, os mais novos olham para mim e não me parece que queiram fazer um projecto com um cota. Portanto é difícil arranjar pessoal que queira alinhar comigo em projectos e acabo por ter de fazer tudo sozinho, sendo assim, fica de parte a possibilidade de tocar ao vivo, porque não tenho banda. Isso desanima? Sim um pouco, mas como se costuma dizer, mais vale só que m0al acompanhado. 

Amigo, tenho um baixista comigo há 5 anos, praticamente, pois foi quando o conheci. Conheço baixistas com um pouco mais de capacidade, apesar de ele ser bom e bem mais novos. Enquanto ele quiser, está connosco a tocar. Tem 62 anos mas uma alma de 25. Não te prendas por esse factor. Aliás, respeito muito a malta de idade e com muita estrada. Têm muito a ensinar nos, mesmo que sejam inferiores a nós musicalmente. Ainda és um miúdo... Se quiseres. 

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amrest    86
há 7 horas, pgranadas disse:

A dificuldade de que falei lá atrás, é a idade. Tenho quase 49 anos e então é assim. O pessoal da minha idade, já não se interessa por música

Estive afastado das lides musicais quase trinta anos em que pegava na guitarra uma ou duas vezes por ano ou quando me pediam para ir tocar na missa. No ano em que ia fazer 50 decidi que ou vendia as guitarras ou dava-lhes uso. Desisti da ideia de vender, pelo menos enquanto não precisar do guito que elas renderão. Desde aí tenho tentado tocar em bandas já existentes ou formadas por mim e amigos. O que me dá mais gozo, apesar dos ensaios também darem prazer, é tocar ao vivo, sair com a malta, beber uns copos e chegar de madrugada ou pela manhã como quando tinha 20 anos (já conto 57 anos mas não sou o mais velho da banda). Faço os possíveis para manter o espirito jovem apesar do corpo dizer o contrário, já não dá para alombar com o set completo, amp mais 2 colunas 4x12 por isso arranjei um combo mais levezinho.

O gas continua o mesmo, o problema são as contas à vida que não deixam. Ainda assim o que eu considero o maior problema é a diferença de velocidades a que cada elemento das bandas quer ir. Quando eramos "miúdos" era sempre prego a fundo, agora pensa-se e repensa-se tudo e uns dizem faz-se e outros dizem talvez não. Sozinho acho que voltaria ao marasmo daqueles anos em que nada fiz.

Um outro gosto em tocar ao vivo é ver jovens admirados com a nossa prestação em palco por alguns já serem mais cotas.

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ncarmona    457
há 18 horas, pgranadas disse:

 

Para lutar contra essa tendência que falas @xtech, no meu caso não tenho dúvida que ajuda ter um objectivo presente.

+1

Para mim, isto é o mais importante. 

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tmo    1638

... eu acho que o cansaço não vem da música mas antes de todas as outras MERDAS que temos de fazer para podermos ter a nossa música. Às vezes é tal que não sobra energia para as nossas músicas. Portanto, mandar tudo às urtigas, pegar na guitarra, baixo, violino, flauta, piano, clarinete, xilofone, ferrinhos, bateria, sousafone, vibrafone, teramin, pífaro, birinbao e continuar a sonhar!... e a chatear os vizinhos, claro, isso é o fundamental.

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A.G.E.N.T.E.    126

há vários tipo de cansaço... o que advém das consecutivas frustrações relacionadas com os projetos musicais e o cansaço gerado pelas outras tretas todas do quotidiano. Uma gajo motivado e com objetivos é muitos menos permeável a qualquer um destes.

No meu "caso" com a música, e outras atividades que quero desenvolver,  tive que assumir que, ou faço cansado ou não faço... portanto, ando sempre estoirado :P  Felizmente motivado!

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